Há músicas que envelhecem como fotografias. Outras permanecem suspensas no tempo, incapazes de pertencer a uma época específica. "The End", do The Doors, pertence a essa segunda categoria.

Mais de cinco décadas após seu lançamento, seus quase doze minutos continuam provocando a mesma sensação desconcertante: a de que não estamos apenas ouvindo uma canção, mas atravessando um ritual. Ela não convida o ouvinte apenas a escutar. Convida a mergulhar.

Curiosamente, foi justamente essa composição que encerrou o álbum de estreia da banda, lançado em 1967. E dificilmente poderia existir um encerramento mais simbólico.

Enquanto todos viam flores, Morrison via sombras

Na Califórnia dos anos 1960, boa parte da juventude celebrava o nascimento da utopia hippie, pregando paz, liberdade e expansão da consciência. Jim Morrison, porém, parecia enxergar algo que escapava ao entusiasmo coletivo.

Onde muitos viam flores, ele via sombras.

Onde havia promessas de libertação, Morrison percebia o peso inevitável da existência. Em vez de anunciar apenas um fim, The End questionava a própria ideia de começo. A música transforma a despedida em um portal, sugerindo que todo encerramento carrega também uma possibilidade de renascimento.

Muito além da psicodelia

Essa talvez seja a maior força da composição.

Morrison nunca entrega respostas prontas. Em vez disso, cria imagens, abre portas e conduz o ouvinte por corredores onde a lógica deixa de ser suficiente. O desconforto faz parte da experiência.

Por isso, reduzir The End a uma sucessão de delírios psicodélicos ou provocações freudianas é simplificá-la demais. O famoso trecho envolvendo pai e mãe atravessou décadas cercado por interpretações relacionadas ao complexo de Édipo, mas o próprio Morrison sugeria que a música operava em outro plano.

Ela fala menos sobre escândalo e muito mais sobre transformação.

O fim de um amor que se tornou o fim de todas as coisas

Em entrevista à Rolling Stone, Morrison afirmou que "o fim" talvez fosse apenas o adeus a uma garota, embora também pudesse representar o encerramento da infância.

Essa ambiguidade sempre foi o verdadeiro combustível de The End.

As primeiras sementes da composição nasceram após o fim do relacionamento entre Morrison e Mary Werbelow, seu primeiro grande amor. Os versos de abertura carregam inevitavelmente essa marca afetiva.

"This is the end, beautiful friend..."

Mas a música nunca permanece apenas no terreno da memória romântica. Ela cresce, se transforma e passa a investigar perdas muito maiores do que qualquer separação amorosa. O fim deixa de ser apenas o término de um relacionamento para se tornar o encerramento de uma forma de existir.

A morte como uma velha conhecida

Em outra entrevista, concedida à jornalista Lizzie James, em 1968, Morrison resumiu uma ideia que parece iluminar toda a composição:

"As pessoas temem a morte ainda mais do que a dor. É estranho que temam a morte. A vida dói muito mais do que a morte. No momento da morte, a dor acaba. Sim, acho que ela é uma amiga."

Essa declaração ajuda a compreender por que The End jamais soa como uma celebração da destruição.

Existe escuridão em cada verso, mas não há fascínio gratuito pelo caos. Morrison encara a morte como quem encara um espelho inevitável. O medo continua existindo, porém deixa de ser escondido.

Para ele, a morte não aparece como inimiga, mas como parte inseparável da experiência humana.

"Mate aquilo que nunca foi seu"

Anos depois, o baterista John Densmore revelou que Morrison costumava explicar o trecho mais controverso da música como uma espécie de rompimento espiritual.

Segundo ele, Morrison dizia:

 "Mate todas aquelas coisas em você que não são suas."

Sob essa perspectiva, a violência simbólica da letra não estaria dirigida aos pais, mas às ideias herdadas, às estruturas impostas e às identidades construídas pelos outros.

Antes de nascer de verdade, seria necessário destruir aquilo que nunca pertenceu ao indivíduo.

Assim, The End deixa de ser uma narrativa sobre morte para tornar-se uma poderosa história sobre transformação interior.

Apocalypse Now: quando cinema e música se encontraram

Talvez seja justamente por isso que a música encontrou um segundo nascimento em Apocalypse Now.

Francis Ford Coppola percebeu que nenhuma outra composição traduzia tão bem o colapso moral da Guerra do Vietnã.

Quando o Capitão Willard atravessa a selva em direção ao Coronel Kurtz, não está apenas cumprindo uma missão militar. Está descendo às regiões mais primitivas da consciência humana.

Morrison já havia feito essa viagem muitos anos antes.

O impacto da sequência foi tão intenso que, para muita gente, tornou-se impossível separar The End do filme.

Ainda assim, a música continua existindo para além daquela cena. Ela não depende das imagens de Coppola. Pelo contrário: foram as imagens que encontraram uma canção que já carregava dentro de si toda a dimensão do apocalipse.

Uma obra que nunca termina

É justamente essa abertura para diferentes interpretações que mantém The End viva até hoje.

Ela nunca oferece uma única resposta. Pode ser lida como o fim de um relacionamento, o abandono da infância, uma experiência espiritual, uma viagem psicológica, um confronto com a morte ou um processo de autodescoberta.

Todas essas leituras coexistem.

No fim das contas, talvez Jim Morrison estivesse menos interessado em falar sobre o encerramento da vida do que sobre o instante em que deixamos de reconhecer quem realmente somos.

O verdadeiro abismo de The End nunca foi a morte.

Foi o momento em que percebemos que a identidade que carregamos talvez nunca tenha sido verdadeiramente nossa.

E é justamente por isso que, mais de cinquenta anos depois, a música continua provocando a mesma sensação inquietante: não estamos ouvindo apenas uma canção. Estamos atravessando um espelho.